Qual eternidade?
Você vem até aqui e me pede a eternidade. Conheço a imortalidade e suas cores e não é isso que você deseja; eternidade não é algo que se deva querer.
Nada é eterno.
Você busca fama, busa ser lembrado, busca ser reconhecido e amado. Você busca se destacar entre os iguais, admirado pelos diferentes e odiado pelos demais. Você busca conforto, que só pode ser dado por quem se dispõe a trabalhar mais e só para você. Você exige justiça, liberdade e poder. Você quer ser livre para ser eterno.
Nada é eterno.
Você busca salvar o mundo da dor, da pobreza, da fome, da injúria e iniquidade. Você quer se martirizar na forca, na guilhotina, na fogueira e na cruz. Você quer ser o primeiro mártir, o animal mais altruísta, o mais abnegado e desapegado. Você não quer nada material, sexual ou intelectual. Você quer ser o exemplo do não-eu para a sua raça, sua espécie, todas as espécies. As algas teriam mais ego que você. Você corteja o nada para ser eterno.
Nada é eterno.
Me disseram que você escreve um livro, um poema e uma peça. Fez um filme, uma série e um jogo seriado. Você compôes odes e hinos e árias e um álbum quádruplo de ópera punk-rock. Você lançou moda, a destruiu e recriou várias vezes na sua vida. Você fez da sua morte um espetáculo. Um show. Um clipe. Um arquivo mp3. Você deu entrevistas e gravou memórias, autobiografias. Você fez de si uma mensgam para todos. Você era a mensagem, a obra. Você copulou com a arte para ser eterno.
Nada é eterno. Não me faça repetir.
Teu mundo já está fadado ao fim. Antes dele, os mares, as montanhas e os oceanos. Antes deles, os animais e vegetais. Antes ainda, tua espécie e seus descendentes. Antes disso, tua língua, tua nação, tua cultura e teu povo. Daqui a pouco, aqueles que souberam de você pelos pais ou avós. E em um piscar de olhos, essas palavras e tua memória.
Você pede a eternidade. O oblívio é o teu prêmio.


