Sobre o sol e outros deuses
A coisa não cabe na palavra.
Falo SOL e desenho uma bola com 'dentes'. Às vezes sorrindo. Escrevo SUN, SOLEIL, HELIOS, ADERBALDO. Sei que é do Sol que falo. Você sabe que é do sol que falo. Medimos, avaliamos, comentamos, cultuamos, inventamos histórias e vivemos sob a égide dessas palavras, desses signos, símbolos.
Mas são índices. Não são o Sol. Não são a coisa.
A coisa não cabe na fala. Nenhuma coisa cabe no que se fala, do que se fala. A coisa que é, nunca está no momento em que se fala dela.
A fala é sempre um passado.
Toda fala carrega apenas a si mesma e, talvez por isso, conte mais do falante que da coisa que é falada. Se falo que gosto de Algo porque é doce ou alto, minto. Algo não é doce ou alto. Ou qualquer coisa além do próprio Algo. E doce não é doce, alto não é alto. O que é dito, não pode ser. Não é. Foi. E deixou uma pegada, um registro.
Digo que esse registro é uma memória daquilo que limita a coisa, o ontos, o ser. O Sol é sempre uma memória para todos nós. Não vejo o Sol na palavra, na imagem, no som (Sol tem som?). Nem o sinto na pele. Sinto, vejo, imagino a memória que o Sol me dá.
O calor da pele é o calor que um dia foi do sol. Mas o calor do sol me devoraria. A tudo. A luz do sol, a memória dessa luz, nasceu há milhões de anos na sua fornalha nuclear. E não é mais a mesma luz que saiu da sua superfície. É algo que percorreu um caminho, atravessou obstáculos e chega até a mim com uma história. Ela contém um passado. Essa luz é sempre um passado.
Como posso falar de algo se algo não cabe na palavra? Ela limita, castra, define. Mas como não falar de algo? Como não falar da vida, das formas? Como não combinar com meus pares os códigos para podermos falar das coisas?
As coisas estão ali. Nós, por sermos criaturas de passado, só podemos falar das sombras delas, do que já foi.
E tudo bem.
Nesse passado perene, construímos nossas ficções e vivemos sobre regras inventadas sobre coisas percebidas.
E tudo bem.
